Aos 70 anos da implantação do regime ditatorial Estado Novo de Getúlio Vargas, reaviva-se o crônico tema da censura ao cinema

 

Em 1937, a sempre instável democracia brasileira sofreu seu primeiro rude golpe, com a implantação do Estado Novo de Getúlio Vargas, nos mesmos moldes de regimes totalitários então vigentes em países como Portugal, Espanha e Itália. Como todo tipo de autoritarismo abomina as atividades culturais, ou outro qualquer meio assegurador da liberdade de expressão, a censura da época voltou-se, inclusive, contra o cinema, perpetrando tresloucados vetos e proibições, todos bem típicos dos execráveis regimes de exceção.

 

Entre os fatos mais polêmicos envolvendo a censura aos filmes durante o Estado Novo, figura a proibição de ´O Grande Ditador´, para muitos a melhor criação do genial cineasta inglês Charles Chaplin, realizador de preciosidades da Sétima Arte, entre as quais ´Em Busca do Ouro´, ´O Garoto´ e ´Luzes da Cidade´.

 

Segundo o escritor, ensaísta e crítico cinematográfico Inimá Simões, em seu livro ´Roteiro da Intolerância´ (Editora Terceiro Nome), ´proibir um filme de Chaplin é um escândalo sob quaisquer circunstâncias e em qualquer período histórico, sobretudo em se tratando da obra-prima do anti-nazismo´.

 

Em ´O Grande Ditador´, Chaplin faz uma contundente crítica aos regimes ditatoriais, enfocando, especificamente, o caso da Alemanha e a figura de Adolf Hitler. Entre as ridículas alegações do censor, major Coelho dos Reis, então diretor do famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o filme continha ´cenas definitivamente comunistas e desmoralizadoras das Forças Armadas´. A seqüência final, na qual há um discurso contundente contra os ditadores, foi uma das que mais despertou a ira e o radicalismo do intolerante major.

 

Proibido no Brasil, ´O Grande Ditador´ provocou um fenômeno mais tarde repetido pela interdição de um outro filme, ´O Último Tango em Paris´, do cineasta Bernardo Bertolucci, dessa vez pela ditadura militar implantada em 1964. Centenas de pessoas viajaram ao Uruguai e à Argentina só para saberem as razões que impediam adultos, vacinados - e em dia com os impostos, de assistirem a uma trivial projeção cinematográfica, sem maiores poderes para abalar ou desestruturar a ´tradicional família brasileira´.

 

Enfoque político

 

Antes de 1937, a censura de Vargas preocupava-se, sobretudo, em proibir filmes que pudessem constranger, de algum modo, os eventuais aliados do Brasil no campo político internacional. Na gestão do cultuado Osvaldo Aranha no Ministério da Justiça (sempre os ministros!...), um filme sobre os imigrantes italianos Sacco e Vanzetti, injustamente acusados de assassinato, foi vetado sob o pretexto de conter ofensas à Justiça dos Estados Unidos.

 

Já o filme alemão ´Mocidade Heróica´, sobre um pai comunista que tentava induzir seu filho a abandonar a ´gloriosa´ Juventude Nazista, foi normalmente liberado e exibido em 1935, quando Vargas flertava abertamente com a Alemanha hitlerista.

 

Depois de rompidas as relações diplomáticas entre o Brasil e os países do Eixo, ainda assim a censura teve de fazer autênticos malabarismos para não se indispor com nenhum dos lados. Com a definição mais clara dos países envolvidos, o DIP conseguiu relaxar um pouco, mas não de todo. Em ´Samba em Berlim´, do diretor Lulu de Barros, a audácia de gozar o nazi-fascismo sofreu alguns cortes, como quando a dupla de cômicos Alvarenga & Ranchinho ironizava Hitler e a curvilínea vedete Virgínia Lane (amante do próprio ditador Vargas) cantava ´O Danúbio Azulou´, com uma imagem do ditador russo Stálin ao fundo.

 

Dupla personalidade

 

Não são raros os casos de unanimidades nacionais terem sua imagem um tanto conspurcada por revelações comprometedoras do espírito liberal e democrático que as identificam, em princípio, com sua legião de admiradores e apologistas.

 

Chegou a ser freqüente, durante a vigência do Estado Novo, a presença de jornalistas e intelectuais no corpo de censores, entre eles nomes respeitáveis como Prudente de Morais Neto, Josué Guimarães e o poeta Vinicius de Moraes.

 

Vinicius, por mais estranho que possa parecer, não gostava que se mostrasse nos filmes o lado pobre da realidade brasileira. Segundo ele, os cineastas nacionais ´como que tinham a sedução das ruas sujas, dos pantanais, das caras feias, das cidadezinhas mais desinteressantes´.

 

Com o objetivo de tirar a ´feiúra´ nacional de circulação, o famoso poeta proibiu um filme sobre uma escola pública no interior do Rio de Janeiro, afirmando explicitamente que o cinegrafista ´fez reunir a garotada, quase todos pretinhos, positivamente imundos, resfriadíssimos, o nariz escorrendo, em frente à tal escola, um barracão troncho de taipas, com uma mão de cal já toda descascada´.

 

Apesar de haver pedido às mulheres feias que o perdoassem, pois ´a beleza é fundamental´, ainda hoje soa estranho que Vinicius de Moraes, na função de censor, pudesse expressar opiniões tão preconceituosas e discriminatórias.

 

Ambigüidade

 

Como quase tudo em matéria de leis no Brasil, a ambigüidade marcava o corpo de regras criado para o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo. Cabia ao órgão a censura de jornais e de quaisquer publicações, de transmissões radiotelefônicas e diversas modalidades de diversões públicas, inclusive o cinema. Era subordinado à Presidência da República (uma ditadura, no caso) e tinha sua direção assistida por um Conselho Nacional de Imprensa, com seis integrantes.

 

Entre suas ambíguas regras estava a proibição, nos filmes, de ´divulgação ou indução aos maus costumes´; ´conteúdo prejudicial à cordialidade das relações com outros povos´; ´imagens que firam, por qualquer forma, a dignidade ou os interesses nacionais´; e ´cenas ou diálogos que induzam ao desprestígio das Forças Armadas´. Isso fazia com que as decisões, sobre o que seria bom ou ruim para o espectador brasileiro, ficassem nas mãos de um diminuto grupo burocrático, sobre o qual a sociedade não podia exercer nenhuma interferência ou controle.

 

Minimizada após a queda da ditadura de Getúlio Vargas, a censura de características medievais retornou, com igual virulência e por maior espaço de tempo, durante a vigência do regime de exceção que dominou o País entre 1964 e meados da década de 1980.

 

Ainda hoje, mesmo tendo sido declarada extinta no Brasil, a censura ainda mostra aqui e ali sua face sombria, por vezes através de máscaras acobertadoras de poderosos interesses políticos ou econômicos. Nunca será demais, portanto, a obrigação de se reivindicar, com enfática veemência, em favor do pleno exercício da liberdade de expressão.


JOSÉ AUGUSTO LOPES

Repórter

O Diario do Nordeste

19/11/07

 

 

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