Jijoca de Jericoacoara. Quem teve o prazer de mergulhar nas águas verdes, transparentes, de areia branquinha, das famosas Lagoa do Paraíso e Lagoa Azul, ícones de beleza natural que ajudaram a levar o nome da Praia de Jericoacoara para o mundo inteiro, custa a acreditar na atual realidade do lugar. As imagens antológicas das redes penduradas no tronco da carnaúba na beira da lagoa, pelo menos, por hora, estão na lembrança.

Contam os moradores que, desde a seca de 1958, tempo da estiagem que assolou o sertão nordestino, as águas da lagoa não abaixavam tanto. “Tenho medo de qualquer dia ver construindo casa aqui dentro”, sussurra uma moradora, acomodada nas tábuas da caminhonete, atravessando o leito seco da Lagoa do Paraíso, num final da tarde da última semana.

Causas variadas

O Diário do Nordeste foi buscar respostas sobre o que, de fato, estaria acontecendo com a Área de Proteção Ambiental (APA) da Lagoa da Jijoca, Unidade de Conservação de Uso Sustentável, de quase quatro mil hectares de área, até pouco tempo repleta de peixes, pássaros e vegetação. A reportagem conversou com moradores, técnicos e estudiosos, e a diversidade de opiniões monta o mosaico de motivos que estariam causando a seca na lagoa.

Entre as possibilidades, o aquecimento global, a diminuição das chuvas, a especulação imobiliária e a degradação do meio ambiente. Tudo junto, pressiona o recurso natural.

Para o gerente da APA, Mozart Araújo, as mudanças climáticas do planeta estariam provocando alterações nas águas da lagoa. “Recarga ali, só com chuva. A Lagoa de Jijoca é alimentada dessa forma e, em Jeri, quase não chove, talvez pela posição muito extrema no oceano. O clima está diferente no mundo todo. A mudança é tão rápida que não dá tempo fechar nenhum tipo de estudo”, destaca ele, que também é funcionário da Semace.

Para o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Coreaú, Benedito Francisco Moreira Lourenço, a intervenção humana seria o principal fator para o desaparecimento das águas do reservatório.

“O modelo de desenvolvimento introduzido no litoral leva a esse problema. São muitos projetos para alargar hotéis, construções, poços profundos, que vão esgotando o lençol freático. Daí se junta ao mau manejo da vegetação, queimadas, extração de areia e acontece isso. São diversas questões associadas”, disse Benedito.

Seu Raimundo Nonato da Silva, “caminhoneteiro”, nascido na localidade de Carro Quebrado, conta que a Lagoa de Jijoca era um só braço de água. Diz que o tempo foi passando, elas foram se dividindo, viraram Lagoa do Paraíso, Lagoa Azul, e agora, continuam mudando seu aspecto natural.

“Tem que ser um inverno muito chovedor pra encher aqui de novo. Ela cheia, dava umas sete léguas de água, lá da Caiçara até o Solidão. Óia que por conta do fundo de areia da duna, a água era cristalina, transparente, impressionante. Agora é mais lama, o fundo ficou escuro”, diz ele, enquanto dirige a própria caminhonete por dentro do leito da lagoa. “Os tempo é outro”.

PARNA JERI

Falta de chuvas está entre causa principal

Jijoca de Jericoacoara. Para o chefe do Parque Nacional de Jericoacoara (Parna Jeri), do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (antigo Ibama), José Osmar Fonteles, o processo de diminuição das águas pode ser natural, mas está influenciado pela degradação ambiental.

“A questão principal são as chuvas que, na região, têm sido abaixo da média nos últimos anos. Por outro lado há falta de cuidado nas margens dela. À medida que seca, os carros passam, impactando o solo. A mata ciliar é prejudicada porque vai sendo arrancada e, onde está mais seca, a areia vai sendo retirada”, disse.

Alimentação das águas

O chefe do Parna Jeri detalhou, ainda, que riachos dos Córregos do Mourão, das Panelas, do Urubu, que ficam no entorno da lagoa, ajudam na alimentação das águas. “Eu tinha apenas três anos quando secou totalmente pela última vez. Naquela época, todos atravessavam os córregos a pé. De lá para cá, a lagoa vem se recuperando, passou por momentos de cheia, e agora, passa por novo processo de secagem. Os córregos ajudam, mas não há canalização de outras bacias para ela. Só chuva mesmo”.

A respeito da cor turva da água, Osmar Fonteles explicou. “Na frente da sede da Jijoca a lagoa secou total. Nas Lagoas do Paraíso e Azul também está bem seco, mas ainda se encontra lugar para tomar banho. Como em torno da lagoa é duna, a medida que enche, vai mexendo a areia e a água ficando mais clara. A cor está escura porque as pessoas estão utilizando menos”, justificou. “Se as previsões da Funceme se confirmarem, provavelmente, não dará tempo voltar a encher mas, com certeza, pegará muita água”, aposta ele.

De acordo com dados obtidos no site da Semace, a Lagoa de Jijoca é resultado da migração de dunas móveis que ocorrem na planície costeira, formada pelo barramento dos Córregos do Paraguai e do Mourão. “A vegetação local é diversificada, desde espécies de gramíneas até componentes arbóreos ou arbustivos, conforme localização na faixa praial, dunas fixas e semi-fixas, tabuleiros pré-litorâneos ou a mata ciliar da lagoa”, descreve.

A lagoa localiza-se entre os municípios de Cruz e Jijoca. Nos limites da APA estão cerca de 20 comunidades.

Até o fechamento desta edição, a reportagem buscou contato com os secretários de Cultura e Meio Ambiente dos municípios de Jijoca e Cruz, mas não conseguiu comunicação.


Natercia Rocha - Diario do Nordeste
 
26/01/08

 

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