O 9º Festival Jazz & Blues começa hoje, com os Irmãos Aniceto, Nonato Luiz e Hamilton de Holanda abrindo a maratona musical em Guaramiranga.
Pelo nono ano consecutivo, o município de Guaramiranga, a 110 km de Fortaleza, é palco de um Carnaval com trilha sonora diferenciada. Este ano, o Festival Jazz & Blues chega com uma programação mais enxuta, com um menor número de shows, em decorrência, segundo a produção, de maiores dificuldades na tarefa de captação de recursos, anualmente renovada e, este ano, particularmente complicada pelo período carnavalesco chegando mais cedo. Mas as principais características do festival permanecem: uma programação cujo ecletismo ultrapassa as fronteiras do jazz e do blues, com atrações de qualidade, de instrumentistas cearenses a músicos de destaque nacional e convidados de outros países.
Assim o festival começa, com as cores regionais dos Irmãos Aniceto se apresentando logo mais, às 17h, no palco montado em frente à Igreja Matriz de Guaramiranga. A partir das 21h, no Teatro Rachel de Queiroz, palco principal da festa, sobem ao palco dois virtuosos instrumentistas brasileiros, de sotaque personalíssimo em seus instrumentos e experientes em festivais e apresentações mundo afora. O violonista cearense faz um show solo, mostrando toda a técnica e a emoção que faz parte de seu violão, em temas autorais e arranjos próprios para clássicos da música brasileira. Como surpresa, um convidado especial. Já o bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda vem com banda completa (incluindo jovens instrumentistas de destaque, como o gaitista Gabriel Grossi), para mostrar composições que estarão em seu próximo disco, ´Brasilianos 2´, além de reler algumas das faixas do primeiro álbum, lançado pela Biscoito Fino, responsável pela transição de sua carreira, de músico acompanhante a instrumentista com um trabalho próprio.
Até terça-feira, o público que subir a serra poderá conferir apresentações de nomes como Felipe Cazaux, Danilo Caymmi, Jefferson Gonçalves, Nicole Borger, Bob Mesquita, os senegaleses Irmãos Guissé, o gaitista francês J. J. Milteau e o cantor, compositor e pianista Ivan Lins, que encerra o festival em Guaramiranga. De quinta a sábado próximo, acontece o ´bis´ em Fortaleza, com shows no BNB Clube e ´workshops´ na Escola Viva Música Viva. Atrações de um evento que caminha para completar uma década de realização, em um patamar difícil de imaginar quando de sua primeira edição, como Festival da Neblina, no Carnaval de 2000, então visto menos como um projeto de perspectivas promissoras do que como uma idéia inusitada. Inclusive pelos próprios músicos.
´No primeiro ano do festival, quando a gente ligou pra convidar o Toninho Horta, dizendo que era um festival de jazz no Carnaval no Ceará, ele pensou que era trote´, recorda Rachel Gadelha, uma das sócias da Via de Comunicação, empresa responsável pela realização do evento. ´De lá pra cá, mudou muito. A gente passa o ano inteiro recebendo propostas, cada vez mais somos procurados por produtores no Brasil e de fora´, compara, reiterando os critérios para a seleção das atrações do festival, tarefa que já contou com uma curadoria escalada anualmente e que, de alguns anos pra cá, vem ficando a cargo da produção. ´Estamos permanentemente abertos pra sugestões, a gente pergunta quem o público quer ouvir. Um parâmetro absoluto é a qualidade. Temos menos atrações esse ao, mas estamos mantendo esse padrão, sem perder o referencial do jazz, do blues e da boa música instrumental brasileira. A gente também quer ter sempre alguma coisa do Nordeste - por isso, esse ano, os Irmãos Aniceto - e sempre ter espaço para o músico do Ceará´.

Desafios
A produtora reconhece que a tarefa tem lá seus desafios. ´Tem hora que não é muito fácil. Precisa ter cuidado para não repetir nomes, pra contemplar vários gêneros e abrir espaço pra pessoas novas. Esse ano procuramos faze isso com a Dunas Jazz Band´, aponta. ´Já o J. J. Milteau vem como uma demanda de público também. Havia alguns anos que as pessoas falavam pra gente, assim como do Hamilton de Holanda. Também tivemos esse ano uma produtora viajando nos principais festivais de jazz a da Europa, fazendo contato, divulgando o evento e procurando novos nomes. Como os Irmãos Guissé, do Senegal, que entraram em contato através do Jefferson Gonçalves, vêm pelo nosso desejo de trazer um pouco da música da África, outro antigo desejo nosso´.
Para Rachel Gadelha, uma das atrações principais do festival este ano, Ivan Lins, exemplifica a integração proposta pelo festival. ´Um músico que é muito associado com a MPB, mas tem um trabalho jazzístico que muita gente não conhece. Então é uma oportunidade de a gente mostrar esse outro lado´, ressalta, citando que a decisão de convidar o autor de ´Madalena´ veio após assistir a uma apresentação do pianista no Tim Festival. ´É a música brasileira tocada de um jeito diferente, com uma banda muito boa. Acho que vai surpreender muito o público - pelo menos quem chegar esperando as músicas de sempre, da FM. Esse é o trabalho: levar essas pessoas pra Guaramiranga, inverter esa lógica. Alguns anos atrás, quem queria ver um show legal tinha que sair do Ceará. Agora temos isso aqui, e em uma cidade do Interior´.

Ontem e hoje
A produtora fala com satisfação das mudanças ligadas ao festival, nestes nove anos de evento, apesar de reconhecer limitações e dificuldades. ´Na nossa realidade, a gente tira leite de pedras. Mas, olhando hoje a foto do teatro no primeiro ano do festival, eu não sei como a gente teve coragem de fazer. Foi feito, mas até hoje, nove anos depois, o teatro não está concluído´, destaca.
´A sensação é que, a cada edição, a gente começa do zero. Mas, apesar disso, eu a gente conseguiu avançar muito. No início era uma luta pra convencer as pessoas da viabilidade de um evento desses, no Interior. Hoje pode ainda faltar muita coisa em Guaramiranga, mas do começo pra cá, por conta do festival, muita coisa já chegou. Principalmente porque o festival nunca perdeu sua ligação com a comunidade´, afirma, citando a geração de empregos e a qualificação de pessoal local. ´O resultado disso, o que isso realmente impactou, eu acho que a gente só vai sentir daqui a alguns anos´.
As complicações, considera a produtora, vêm da dificuldade em conciliar a produção de um evento desse porte à agenda das políticas públicas de cultura. ´A tendência do festival era crescer, porque cada vez mais somos procurados por nomes bons que querem vir tocar. Mas é preciso confirmar com esses caras com cinco meses de antecedência. E a dificuldade de captação de recursos, principalmente com essa antecedência, limita a nossa capacidade de planejamento´, argumenta Rachel. ´É complicado. Esses projetos que acontecem todo ano deveriam sentar pra conversar melhor com o governo, pensar qual o seu lugar, a sua importância, e como se poderia trabalhar esse planejamento. Não é um problema só do Estado, nem só do festival; é questão de política pública como um todo e de todos os eventos que sentem essa dificuldade´.

Conquistas e desafios
Entre as conquistas alcançadas, a produtora ressalta o estímulo à formação de novos grupos e o alcance de mais reconhecimento pelos músicos cearenses, com novos CDs e mais espaços. Já entre as metas para o futuro do festival, Rachel Gadelha cita um maior investimento em atividades de formação. ´Seria muito bom se um dia os shows pudessem ser um momento do festival, mas que ele permanecesse com a parte de formação ao longo do ano´, indica. ´A gente tem a responsabilidade de fazer o festival crescer, mas de deixar resultados maiores pra comunidade´.

Dalwton Moura - Repórter - Diário do Nordeste

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