Um emocionante encontro inicial com o público de Guaramiranga. Assim foi o Ensaio Aberto com Hamilton de Holanda, na tarde de sábado. Acompanhado pelo violão de Daniel Santiago e pela gaita do notável Gabriel Grossi, o bandolinista brasiliense mostrou muita disposição para o diálogo com o público. 

Durante o ensaio com casa cheia no Teatro Rachel de Queiroz, tocou mais tempo que o previsto e sintetizou as virtudes que o fazem um dos grandes nomes da música brasileira de hoje, com reconhecimento internacional. A saber: talento de sobra, amadurecimento para percorrer com seu bandolim caminhos harmônicos mais tortuosos e melodias de notas mais cadenciadas, partindo das melhores referências da música brasileira para a busca de um sotaque próprio ao tocar.

Como se não bastasse, Hamilton ainda conta com espontaneidade (percebida em uma evidente e sincera diversão ao fazer música), carisma (agradando dos mais idosos apreciadores de choro aos metaleiros que marcavam presença na fila para o ensaio) e uma boa presença de palco. Características comprovadas no encontro informal com o público em Guaramiranga. Ali, trajando um modelo ´vintage´ do uniforme do Flamengo e brincando de trocar instrumentos, indo do baixo ao violão, o brasiliense conseguiu transformar uma platéia inicialmente contida em uma audiência participativa, a ponto de proporcionar um fato inédito nos ensaios abertos do Festival Jazz & Blues. Uma canja de alguém que saiu da platéia para o palco - no caso, o jovem Rafael Veira, o Makito, de 20 anos, estudante de Música na Uece e há apenas 11 meses dedicado ao estudo do bandolim. 

Pois Marquito teve sua chance de dividir o palco com um consagrado colega de instrumento. Hamilton provocou o público a fazer perguntas, até que alguém levanta a mão e fala para o teatro cheio: ´Meu amigo aqui e seu fã e quer ir tocar aí do seu lado´. ´Tu é doido, é?´, responde Marquito, para risada geral. Mas Hamilton topa a parada, e o jovem bandolinista sobe ao palco, para um dueto, certamente inesquecível, no clássico ´Noites cariocas´. ´Foi no susto´, comentou, depois do show, Marquito, que não perdeu o ritmo nos fraseados de Jacob. Superando o nervosismo, fez até dancinha, para mais aplausos da torcida. E teve seu momento de estrela, posando para fotos e ganhando o incentivo de Hamilton em um bate-papo particular após o ensaio público.

Um encontro descontraído e tão prazeroso quanto intensa é a entrega deste craque do bandolim à sua música. Antes da canja, Hamilton disparou improvisos sobre ´Viva o Rio´, de Hermeto Pascoal e mostrou uma música inédita, com direito a ´scats´ e a uma linha melódica meio tribal, que parte da platéia não deixou de cantar junto. Segundo Hamilton, a música fora composta na noite anterior, na pousada Logradouro, onde ele ficou hospedado com os colegas de banda. De quebra, espaço para Gabriel Grossi brilhar, inclusive em um número de gaita solo. ´Com acordes, melodia, ritmo, é a primeira vez que eu vejo isso´, elogiou Hamilton, que, por sua vez, mandou apenas com seu bandolim um belo arranjo revelando influências de Baden com ´Canto de Ossanha´ e ´Berimbau´. Um ensaio que valeu por um show.


Dalwton Moura - Diario do Nordeste

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