Veio do Senegal o show com a mais intensa resposta do público no Festival Jazz & Blues em Guaramiranga. Com sua musicalidade calcada em vocais apurados, violões com sotaque diferenciado e um impressionante jogo de percussão, os Irmãos Guissé mostraram como unir tradicional e contemporâneo. E, de fato, emocionaram.

Como um jogo de percussão, reunindo peças de diferentes origens, usos e sonoridades, a música tem o poder de transcender fronteiras. A comparação é feita por Alioune Guissé, percussionista do trio de irmãos senegaleses que, aplaudidos de pé na noite de domingo pelo público que lotou o Teatro Rachel de Queiroz, foram aclamados como nenhuma outra atração deste Carnaval em Guaramiranga. Sem o exagero dos apelos caricatos, nem a concessão ao fetiche do exotismo recorrente em rótulos como ´world music´. Ou seja, nada de sons tribais, daqueles pra inglês ver. O show dos Irmãos Guissé refletiu fielmente a natureza de sua música, que chama a atenção por ser ao mesmo tempo simples e complexa, local e universal, tradicional e contemporânea. Pouco importou a barreira do idioma. O público entendeu o recado. E respondeu à altura.

Cantando já ao entrar no palco, os Guissé dizem desde cedo a que vêm, ganhando a platéia de cara. Além de Alioune na percussão em que se destaca o grave pesado da cabaça, Cheikh e Djiby são os donos das vozes, que se sobrepõem com beleza e sentimento, e dos violões carregados de recursos percussivos e de sotaques próprios nas frases. Na harmonia, poucos acordes, repetidos conforme as canções começam sutis para terminar em contagiantes crescendos. Na melodia, ecos da matriz africana e de seu legado para o mundo - seja nas lembranças da música cubana, seja na referência às linhas típicas do blues de raiz, do sul agrário e negro norte-americano.

O Brasil, celebrado pelo grupo que pela primeira vez se apresenta no País, não ficaria de fora. Djiby se encarregou de revelar ao público a inspiração bossa-novista para ´Fouta´, canção que abre o disco ´Siré´, composta em homenagem à cidade natal dos músicos, no norte senegalês, e cantada em poulaar. A apresentação tem ainda letras nas línguas ouloff, pulare e manding. Entre uma canção e outra, francês e inglês para falar à platéia. ´Meu irmão, Roberto Carlos´, brinca Djiby, referindo-se ao jogador de futebol e apontando para Cheikh, que circulou por Guaramiranga de camisa verde e amarela.

Convites a cantar também não faltaram, embora nem fosse preciso. O púbico fez questão de acompanhar a cadência dos ritmos em que os Guissé tecem suas canções, com seqüências que vão se repetindo e também abrindo espaço para a improvisação - em que a percussão se destaca, mas os solos de violão não deixam por menos. O resultado soa sempre bastante coeso, ressaltando o entrosamento do grupo, de ligação fraterna transparecendo na música. ´Espero ver vocês de novo. Sucesso e felicidade!´, cumprimentou Djiby, antes de o grupo se despedir, aplaudido de pé. O ´bis´ pedido pelo público ficou pro sábado, em Fortaleza.

 

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