Overblog Suivre ce blog
Editer l'article Administration Créer mon blog
Brésil Ceara Fortaleza

O Diario : Patrimônio destruido - "Sem rosto" (2)

Iracema Sales

Fortaleza é uma cidade sem rosto, onde pás e picaretas puseram abaixo parte do patrimônio

A falta de memória e o descaso para com o patrimônio histórico faz com que Fortaleza não tenha um ´rosto arquitetônico´ definido, coeso, lamenta Christiano Câmara, que tenta guardar os pedaços do que resta da Fortaleza antiga. São fotos de uma cidade que se rendeu ao modernismo. Em nome do novo, seus administradores não encontraram resistência em pôr abaixo grande parte do patrimônio. Pás e picareta cuidaram de destruir a memória — não importa o valor arquitetônico ou artístico — mas sim os elementos simbólicos de uma cidade que ficou sem rosto, observa o pesquisador e musicólgo.

´Fortaleza não tem rosto arquitetônico, posto que, de tempos em tempos, sua feição é alterada´, desabafa. A atração pelo moderno, na sua opinião, foi responsável pela destruição de parte considerável do patrimônio histórico-arquitetônico de Fortaleza. A demolição da antiga Igreja da Sé é um exemplo. ´Não havia necessidade, bastava ter construído a nova Catedral em outro lugar´, justifica o pesquisador.

Velharia ou cultura?

Ele lamenta que o fato venha acontecendo em todas as cidades brasileiras, algumas em maiores proporções do que em outras. ´Aqui o antigo é sinônimo de velharia´, critica, fazendo comparação com a Europa. ´Em qualquer capital européia existe a parte nova e a parte antiga´, diz, completando que isso no Velho Mundo recebe outro nome: cultura.

No Brasil — e o Ceará não está fora deste contexto — , marretas e pás foram usadas para pôr abaixo equipamentos simbólicos que serviram para marcar a história das cidades. Cita alguns equipamentos, como a Praça do Ferreira, que recebeu diversas nomes sendo chamada, a partir de 1851, Praça do Ferreira, em homenagem ao boticário Ferreira.

´A princípio era somente um areal, com uma cacimba no centro´, conta. Em 1886, em plena efervescência da Belle Époque, quando a Europa irradiou clima de euforia e esperança diante da vida, Fortaleza inaugurou o seu primeiro café, que recebe o nome de Java.

Ele abrigou, em 1892, a ´Padaria Espiritual. Para Christiano Câmara, foi um movimento super-modernista que antecedeu, em 30 anos, a Semana de Arte Moderna, de São Paulo, em 1922.

Ainda embalada pelos ventos da Belle Époque — movimento artístico e cultural, ocorrido no fim do Século XIX e início do Século XX, quando a cultura francesa se expandiu pela Europa — , Fortaleza passou a contar com outros cafés. Depois do Java, foram construídos o Iracema, o do Comércio e também o Elegante.

Em 1902, a praça ganhou jardim e a cacimba foi fechada. Em 1920, foi ladrilhada, além de serem demolidos os quatro cafés. Em 1925 o logradouro ganhou um coreto, sendo construída, em 1933, a Coluna da Hora, demolida em 1968.

Pás e picaretas

Passado o clima da ´Belle Époque´, que durou até 1914, quando explodiu a Primeira Guerra Mundial, Fortaleza passou a sofrer outra influência: a norte-americana, depois da Segunda Guerra Mundial (1945-1949). Os boulevards construídos aos moldes da Cidade Luz mudaram a paisagem urbana da Cidade, antes, caracterizada pelo areal.

Com a entrada em cena do movimento moderno, muitas construções foram demolidas para abrigar o ´novo´ modelo arquitetônico. Era moda lá fora e Fortaleza tinha que acompanhar a nova onda.

Iracema Sales - Diario do Nordeste
13/04/08

Commentaires