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Brésil Ceara Fortaleza

O Diario : Seguindo a tendência da época - A cidade “acontece” (5)

Marta Bruno

A cidade foi crescendo, conquistando novos espaços, de novas formas também

Os espanhóis que chegaram à Praia Mansa, a Jericoacoara e a Icapuí para abastecer suas naus; os holandeses vieram em busca de metais preciosos na Serra de Maranguape; e os portugueses se instalaram e formaram bases ainda visíveis nas edificações e estrutura da cidade, destaca o arquiteto Euler Muniz.

O desenho português se deu com o ordenamento pombalino, caracterizado pelas edificações de costas para o mar e imponentes no alto, como explica o arquiteto e urbanista. ´O porto e o mar eram considerados espaços menores, dos pescadores, enquanto a parte alta era mais nobre. Era uma cidade militar, de proteção da costa´. Tanto que Fortaleza não foi a primeira capital do Estado. Foi Aquiraz que, junto com Camocim e Aracati, eram os pólos de chegada de riquezas.

Esse cenário só mudou com a instalação da Rede de Viação Baturité, que ligava Fortaleza ao Crato e a Sobral, em direção ao Piauí. ´O porto que apareceu como o mais qualificado foi o daqui, porque a ferrovia vinha até a cidade. Com isso, Fortaleza começou a se expandir em direção a Jacarecanga, com uma estrutura rural dentro do espaço urbano´, explica, o que ainda pode ser constatado pelas edificações do bairro que une linha férrea, senzalas transformadas em vilas e casarões que hoje abrigam comércio e poucas residências.

 

Nessa época, já no Século XVIII, o Riacho Pajeú representava um obstáculo para o crescimento da cidade. Era uma barreira física que só foi transposta no fim do Século XIX, início do XX, período da Belle Époque. ´Com as exportações, outros horizontes se abriram. Os filhos dos latifundiários foram estudar francês, foi construído o primeiro hidroporto de Fortaleza´, observa o professor. Até então, as casas coloniais eram de sobrado e se dispunham no alinhamento da via.

 

A vinda da Família Real para o Brasil, há 200 anos, mudou o perfil dos novos moradores europeus. Se antes vinham os fugitivos ou banidos sociais de Portugal, com apoio inglês vieram nobres, artistas, construtores, engenheiros militares.

 

O período também foi de abertura do comércio direto com a Inglaterra. As edificações eram trazidas de lá e montadas aqui, como o Theatro José de Alencar. Perto do mar e dos portos, o Centro se adensou e forçou os moradores a buscarem opções de lazer e qualidade de vida. A fuga do Centro resultou na construção de chácaras no Benfica e, mais timidamente, na Parangaba. As edificações valorizavam o afastamento da via, com casas recuadas e cercadas de verde.

 

Na década de 1930, o mar também passou a ser buscado como elemento de lazer. O Riacho Pajeú foi transposto e a Praia de Iracema, valorizada. Surgiram os primeiros clubes, as roupas de banho, tudo com base na cultura francesa. As casas construídas perto da praia agora eram voltadas para o mar, com elementos de chácara. O banheiro, por exemplo, continuava como a sala de banho fora da casa, mas com banheiras inglesas e os dejetos sendo depositados em tinas chamadas de tigres. ´Quando os tigres enchiam, os dejetos eram jogados pelos negros no fundo do quintal´, relata. A cozinha era o centro da casa, fazendo as vezes também de sala de jantar. A sala propriamente dita era só para os visitantes. As alcovas eram dispostas em série e interligadas por portas centrais e um corredor ao lado. O modelo baseava-se nas edificações do Algarve, região praiana do Sul de Portugal.

 

Por volta dos anos 60, Fortaleza começou a se verticalizar, primeiro com prédios de três pavimentos na Aldeota antiga. Não faltava o pilotis, idéia francesa que dava espaço ao vento. Os andares se esticaram, ganharam outras influências, características próprias e a cidade ganhou várias centralidades, modelo ideal, para o arquiteto, se cada bairro fosse auto-sustentável. A periferia, que antes representava qualidade de vida, atraiu os conjuntos habitacionais devido aos custos mais baixos para a construção. Simultaneamente, a possibilidade de trabalho na cidade atraiu moradores do Interior, inchou o espaço urbano e começaram a aparecer as deficiências na saúde, educação e transporte. ´Isso ocorreu em todo o mundo. As cidades acontecem apesar dos planejadores´, afirma.

 

Marta Bruno, Repórter, Diario do Nordeste

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