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Brésil Ceara Fortaleza

O Diario : Sociedade fechada - No seu lugar... (6)

Iracema Sales

Fortaleza ainda não conhecia a praia como opção de lazer. Ela ainda ficava nos quintais das casas

As vitrines das lojas do Centro encheram os olhos do menino Marciano Lopes, que chegou a Fortaleza aos 9 anos, na segunda metade da década de 1940, quando a cidade tinha uma outra feição. ´Era como se estivesse chegando em Nova Iorque´, compara o escritor e memorialista, que guarda cada pedacinho daquela época com cuidado para não esquecer nenhum detalhe.

Com esse esmero, quase sem querer, o jovem Marciano foi construindo uma história para Fortaleza. ´Não escrevia nada, apenas observava´, justifica. Como flashes fotográficos, a Cidade começa a aparecer pelo olhar de Marciano. Ao ser indagado sobre a convivência social naquela época, é incisivo: ´Não havia mistura´, ao se referir ao preconceito entre as classes.

Naquele tempo, a Cidade começava a absorver a cultura norte-americana do pós-guerra. ´As pessoas tinham mais simancol´, diz, acrescentando que existia preconceito, sim. Não havia proibição para as classes menos favorecida, apenas elas reconheciam o seu lugar. ´Elas sabiam que aquele não era o seu mundo´, observa o memorialista.

No entanto, foi neste contexto de desigualdade que, não apenas Fortaleza, mas o Brasil foi se desenvolvendo. A principal opção de lazer na Cidade era o cinema, já que a praia não fazia parte da vida do fortalezense ainda. ´As famílias não freqüentavam, exceto por recomendação médica´, diz, explicando que sequer existia rua definindo a beira-mar.

Desta forma, as praias ficavam nos quintais das casas, assim como alguns clubes, a exemplo do Náutico e do Ideal. Outra diversão permitida às famílias eram os passeios dominicais, pelas ruas do Centro, para observar as vitrines das lojas.

Adeus aos cafés

A inauguração da sorveteria Variedades, em 1949, situada na Rua Barão do Rio Branco, serviu para marcar o início da influência norte-americana em Fortaleza. Não existiam mesas individuais, mas sim balcão e bancos altos. A ambientação contrastava com a dos cafés inspirados nos equipamentos parisienses. ´Foi quando a juventude experimentou cachorro quente e tomou refrigerante no canudinho´, destaca.

Logo, o local passou a ser o ponto de encontro da juventude elegante da época. Os cafés ficaram restritos aos homens, sobretudo políticos. Naquele tempo a mulher não freqüentava todos os ambientes, sobretudo as moças ditas de família. Espaços como a praia e a rua não eram para mulheres de recato. As visitas aos parentes, os clubes e as vitrines eram passeios permitidos às famílias.

Iracema Sales, Repórter, Diario do Nordeste

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