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Brésil Ceara Fortaleza

O Diario : A opinião do especialista - O Desaniversário (8)

Régis Lopes

No dia 13 de abril de 1726 houve a instalação da vila de Fortaleza. Estaria criada, a partir de então, uma data de aniversário? Não. Nesse âmbito festivo, nada houve, por exemplo, no dia 13 de abril de 1826. Estranho? Também não. Na primeira metade do século XIX, não existiam datas comemorativas de caráter cívico, nem faziam falta. As festas eram outras, quase todas ligadas ao calendário católico.

A primeira grande data de aniversário só vem em 1903, quando se rememora, com festas, publicações, hinos, missas e medalhas, o tricentenário da chegada dos portugueses ao Ceará. Começa, a partir daí, a moda permanente da comemoração. Renova-se o ideal de Alencar: surgem novos mitos fundadores, obviamente sem a força de Iracema. Renova-se a mania de explicar essa entidade chamada Ceará (ou Fortaleza) por meio da localização de supostas origens.

Em 1926, ao contrário de 1826, há uma mobilização para marcar o aniversário de Fortaleza. Na Câmara Municipal, são proferidas palestras a respeito do bicentenário, com elogios ao passado e confiança no futuro. A história, naqueles discursos, tinha sentido utilitário: aprender com o passado para alimentar o progresso, tudo em nome da pátria. De modo descontínuo, os letrados começam a lembrar da data. Exemplo disso é o ano de 1954, quando Raimundo Girão e Ubatuba Miranda realizaram palestras na Casa de Juvenal Galeno.

Como se sabe, a lei que cria o ´Dia da Cidade´ é de 1994, que pode ser vista como um indício de disputas e acordos sobre uma tradição mais ou menos cambaleante em torno do 13 de abril. A data pegou. Instituições públicas e privadas envolveram-se de variadas maneiras, promovendo ou criticando. Enquanto o povo se lambuzava com o açúcar do bolo gigante servido na praça do Ferreira, alguns intelectuais imaginavam que seria um momento para refletir. Apareceram, de última hora, as empresas de eventos e os interessados em ´resgatar a memória´. O pretérito passa a ter seu preço em sintonia com a sociedade do espetáculo.

Capistrano de Abreu, em 1922, quando o Rio de Janeiro preparava o centenário da independência, escreveu ao amigo João Lúcio: ´agosto será o mês dos congressos, não quero estar aqui, porque envergonha-me o papel triste que vamos fazer´. Capistrano advertia que a pesquisa histórica não poderia ser substituída pelos eventos promovidos por aqueles que ouvem o galo cantar, mas não sabem aonde. Sentia que essas festividades tornar-se-iam momentos ideais para a repetição de estereótipos e as disputas entre medíocres.

Isso significa que é preciso reinventar as comemorações. Alice, no seu País das Maravilhas, dá uma pista: levar em consideração os dias de desaniversário.

 

Régis Lopes (Professor do Departamento de História da UFC)

regisufc@hotmail.com

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