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Brésil Ceara Fortaleza

O Povo : Bom Jardim - Uma paz com voz (6)

Demitri Túlio

O Plano de Desenvolvimento do Grande Bom Jardim, elaborado por segmentos da população, pode ser considerado instrumento de enfrentamento à violência urbana

Ocupar o bairro, fortalecer sua identidade, assumi-lo como território e exigir de maneira organizada o que é dever do poder público. Não há fórmula mirabolante, nem promessa sebastiânica de campanha política, que subverta o óbvio. Do Grande Bom Jardim, algumas iniciativas gestadas por segmentos da população, um contingente de 175.144 habitantes que se divide em cinco bairros, têm impactado o que se costumou chamar de violência urbana. Projetos concretos e estudos prospectando os próximos 18 anos são práticas e perspectivas de mudança entre as novas gerações de cidadãos.

Não há pesquisa científica atestando a queda no índice de violência urbana no Grande bairro, mas há de se desconfiar da dinâmica social e ação de agrupamentos do Canindezinho, Granja Portugal, Bom Jardim, Granja Lisboa e Siqueira. Falando assim, há os que duvidam e só conseguem enxergar no Grande Bom Jardim um lugar onde apenas se produz medo e onde a miséria engorda. É a história construída a partir da versão do gato sem se ouvir o rato. Mas existe também, por lá, gente que discute a questão e tenta transformar discurso em prática.

Grupos que saíram do estágio da lamúria assistencialista para experimentar o protagonismo popular. E partiram do óbvio: investimento social para conter a violência começa dentro de casa, que reverbera na rua e corre o bairro. Nas residências pequenas - geralmente superlotadas segundo pesquisa da Universidade Estadual do Ceará, anota-se, principalmente, a inquietação feminina por transformação. São elas, comumente, que fiam as teias do cotidiano dos filhos miúdos, adolescentes e jovens.

Para não ficar apenas na conversa, um ínfimo merece lupa. Em 2003, um capítulo do plano de “Política de Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim” previa a intenção de se construir um shopping popular. Na justificativa para a viabilização do negócio, a “inexistência de um equipamento que pudesse suprir as necessidades de profissionalização, exposição de produtos e consultoria para empreendedores” do bairro. Mais: “geração de ocupação e renda propiciada pelas atividades que serão desenvolvidas” e a “circulação de capital em uma região” com pelo menos 2.700 empreendimentos de comércio e serviços.

Dois anos depois, em setembro de 2005, a população inaugurava o Bom Mix. Shopping construído no Canindezinho e onde, atualmente, funcionam 13 lojas. Doze de propriedade de mulheres chefe de família e uma que funciona como lugar de exposição e venda consignada pra quem não pode pagar aluguel. O empreendimento nasceu de rodadas de discussões, da necessidade de se enxergar o poder de mobilização de quem está no bairro e de se refazer caminhos de uma história de excluídos sociais.

Antes dele, veio a Agência de Desenvolvimento Local e Socioeconômica Solidária - a Fundesol. Após 8 anos de atividade a constatação da consolidação do crédito solidário para 500 associados e o credenciamento de 88 estabelecimentos comerciais e produtores de serviços. Mais uma vez, a mulher puxa o cordão das transformações. As chefes de família do Grande Bom Jardim, segundo dados do Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), respondem por 75% dos empréstimos.

Além disso, é fato a vocação do Grande Bom Jardim pelo interesse das artes. Não foi apenas por motivos políticos que a ex-secretária da Cultura, Cláudia Leitão, decidiu que uma filial do Centro Cultural Dragão do Mar fosse construída por lá. O bairro, único a ter um “Dragãozinho” em Fortaleza, tem em uma só Rede de Cultura (RAC) 420 artistas cadastrados. Uma pesquisa apontou ainda, a existência de pelo menos 60 bandas musicais e 65 grupos de outros gêneros de manifestação cultural. O CCBJ, por sinal, é coordenado por Diana Pinheiro - ex-aluna da Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes (Edisca).

No plano que detalha a Política de Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim há um capítulo sobre o “Jardim Brincante”. Segundo Francisco da Silva, 32, o Thesco, do CDVHS, trata-se de um plano estruturante que irá articular as redes de cultura existente no bairro. A idéia é consolidar uma “teia” para desenvolver talentos, criar e dinamizar equipamentos de cultura e lazer e descobrir potencialidades também na área do esporte. No bairro também funciona há 17 anos um Circo Escola, do Governo do Estado, por onde já passaram cerca de 36 mil meninos e meninas. O objetivo não é formar artistas, mas desenvolver competências e reinventar futuros.

A frase a seguir não é minha, pertence ao rapper Preto Zezé - da Central Única da Favelas - e foi dita durante a realização do projeto “Diálogos Urbanos” de O POVO. Refaço-a e a misturo a duas manchetes de jornal publicada em março último. Não adianta mais debater a pobreza, o temor à violência urbana (e achar que é solução a construção de um presídio para jovens de 17 a 21 anos em Fortaleza; e que o Ronda do Quarteirão é eficiente porque triplicou o número de apreensão de crianças e adolescentes infratores). Está na hora de garimpar e potencializar protagonismos nos bairros e dividir riquezas.

Demitri Túlio da Redação

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