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Brésil Ceara Fortaleza

O Povo : Patrimônio - O futuro do pretérito (10)

Marcela Belchior

Projetar o futuro é também preservar o passado. Na trilha do debate sobre o patrimônio da Cidade, propostas para resgatar e reatualizar aspectos da memória oficial e da memória marginal de Fortaleza

Além de construir, é preciso preservar. E fortaleza conta, hoje, com um grande acervo de edificações que precisam ser tratadas como patrimônio histórico da cidade. É o que defende o arquiteto Romeu Duarte, ex-superintendente do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) do Ceará. Para ele, Município e Estado têm "dívida" com relação a esse acervo. "É verdade que essa última gestão pelo menos manifestou algum tipo de interesse quando criou uma instância dentro da Funcet (Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza), mas ainda não há um aporte de arquitetos, historiadores, cientistas sociais", aponta Duarte.

Segundo ele, Fortaleza necessita, hoje, ter um projeto de inventariação, que faria um levantamento completo do que existe de importante para a construção da memória da cidade. Benfica, Jacarecanga, Messejana, Centro, Praia de Iracema e Parangaba seriam alguns dos bairros que, certamente, entrariam na lista de áreas com obras a serem preservadas. Além da identificação e documentação, o arquiteto indica que é necessário que seja retomado um amplo programa de tombamento. Ampliar o "poder de fogo" do departamento de patrimônio também contribuiria para intensificar a atenção com os bens físicos da Capital. "Para que ele possa desenvolver seu trabalho e realizar restauro em áreas de interesse para que a cidade ganhe com isso. Hoje não há ninguém que tenha condições de fazer isso", observou o arquiteto.

Um trabalho de promoção do patrimônio, através de publicações periódicas e exposições, por exemplo, também contribuiria para que a população fortalezense tivesse conhecimento dos bens simbólicos da Cidade. "É preciso que se determine projetos de intervenção física integrados ao planejamento da Cidade. Não faz sentido ter o patrimônio separado do Plano Diretor", acrescenta o também professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC.

Uma forma de cuidar o patrimônio, sugere o arquiteto, seria atribuir novas funções às edificações. "Pensar ações para que esse patrimônio venha a ser utilizado. Não pode ser apenas uma peça de museu", sugere. O trabalho, para ele, poderia ser desenvolvido pelas secretarias municipais, com participação popular nos conselhos de bairros. Além disso, Duarte destaca a importância de pensar o patrimônio da Cidade também no âmbito ambiental. "O meio ambiente é natureza e cultura juntos", destacou.

Além dos teatros, instituições e grandes edifícios históricos, o doutor em Comunicação e Cultura e professor do programa de pós-graduação em Comunicação Social na Universidade Federal do Ceará (UFC), Casemiro Neto, indica que outros espaços na cidade são importantes para a construção da memória e identidade de Fortaleza, à qual ele se refere como memória marginal.

São casas de anônimos, logradouros, prostíbulos e outros tipos de edifícios e locais da Capital que expressam, também, os sentidos da Cidade. "O prédio onde funcionou durante muitos anos a boate Guarani é um dos mais representativos. Essa memória não é legitimada formalmente por quem valida, que é o saber intelectual, as instâncias políticas. Há outras formas de significados que interessam à população", observa Casemiro. "É preciso misturar as memórias. Sair daquela idéia de uma memória asséptica, como se fosse mais erudita, que tem mais importância", complementa.

Marcela Belchior

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