Novos fatos sobre a vida de Lampião e Maria Bonita vêm a público durante encontro realizado em Pernambuco

 

Serra Talhada. Com um passeio ecológico no Sítio Passagem das Pedras, onde nasceu Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”, foi encerrado no último domingo, neste município pernambucano, o Encontro Nordestino de Xaxado, que teve como tema principal a história do cangaço, no âmbito das comemorações dos 70 anos de morte de Lampião, ocorrido em julho de1938 — da cidade de Piranhas (AL), partiu o contingente policial que matou Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros do bando, na grota de Angicos (SE).

 

O encontro de Serra Talhada, realizado nos dias 6, 7 e 8 últimos, contou com a participação de jornalistas, historiadores e grupos de xaxados da maioria dos estados do Nordeste. A maior representação foi do Ceará que mandou dois grupos folclóricos: Grupo Parafolclórico Terra da Luz, de Fortaleza, e Grupo de Xaxado Maria Bonita, de Ipaumirim. O Crato foi representado pela secretária de Cultura do município, Daniela Esmeraldo.

 

O médico e escritor Magérbio Lucena, autor do livro “Lampião e o Estado Maior do Cangaço” e o jornalista Antônio Vicelmo participaram da mesa-redonda ao lado dos historiadores João de Sousa Lima, da Bahia; Antônio Vilela de Souza, de Pernambuco; Márcio de Lima Dantas, professor de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Giovanni Sá, jornalista; Sérgio Augusto de Souza Dantas, jurista; Aurenéa Maria de Oliveira, professora de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco; e Anildomá Willans de Souza, escritor.

 

Filho de Lampião

Cada um dos debatedores falou durante dez minutos sobre “Lampião e o Mito”. A novidade foi a descoberta feita pelo historiador e pesquisador João de Souza Lima sobre a existência de um filho do cangaceiro, Ananias Gomes de Oliveira, conhecido por “Pretão”, residente em Santo Amaro, São Paulo.

 

De acordo com os historiadores, Lampião e Maria Bonita tiveram uma única filha, Expedita Ferreira, nascida em 1932, única sobrevivente das quatro gestações de Maria Bonita, que foi criada anonimamente por “coiteiros”. Com 76 anos, Expedita vive hoje em Aracaju (SE) e se negou a fazer exame de DNA para confirmar ou desmentir a existência do irmão.

 

Autor de quatro livros sobre o cangaço, João de Souza Lima, que reside em Paulo Afonso (BA), se tornou conhecido por ter localizado, em Minas Gerais, os cangaceiros Antônio Ingnácio da Silva, o “Moreno”, e Durvalinha Gomes de Sá, conhecida como “Durvinha”.

 

Nas pegadas do cangaço, o escritor ouviu muitas histórias. Uma delas relatava um segredo guardado a sete chaves. Ao perguntar a um primo de Maria Bonita sobre o casal de gêmeos irmãos da mulher de Lampião, o interlocutor disse: “Irmão, não. O Ananias, que tem o apelido de ´Pretão´, é filho de Maria Bonita e Lampião”. O primo da cangaceira complementou dizendo: “Você já percebeu que Ananias é diferente do seu irmão Arlindo. Um é preto e o outro é moreno. Você já viu gêmeos diferentes?”.

 

Com o levantamento da suspeita, o escritor aprofundou as investigações e confirmou com outros parentes de Maria Bonita que Ananias é filho do casal de cangaceiros. Foi a própria mãe de Maria Bonita, dona “Déa”, que criou os dois meninos como gêmeos, mas sabendo que Ananias era seu neto, filho do casal cangaceiro.

 

A revelação foi confirmada pelo historiador Antônio Amaury Correia, que descobriu um relato feito pelo major reformado do Exército, José Mutti, no livro “Reminiscências de um Ex-combatente de Volante”. O militar diz que a mãe da Maria Bonita lhe confidenciou que Ananias era filho de Lampião.

 

Para o escritor cratense Magérbio Lucena, a informação tem fundamento. “Do ponto de vista histórico, tem sentido. Maria Bonita e sua mãe tiveram filhos na mesma semana”, Lembra Magérbio, acrescentando que, para o casal de cangaceiros, era mais prático a criança ficar no anonimato.

 

Não é a primeira vez que aparecem supostos filhos de Lampião e Maria Bonita. Na década de 80 , surgiu em Juazeiro do Norte, João Ferreira de Silva, um ex-lutador de boxe conhecido por “João Peitudo”, que se dizia filho de Lampião e Maria Bonita. Ele morreu em 1994, de ataque cardíaco.

 

João submeteu-se a dois exames de DNA para tirar as dúvidas sobre sua filiação. Mas os resultados foram considerados inconclusivos. João Peitudo dizia ter nascido em 1938, no meio das caatingas e fora entregue por Maria Bonita a dona Aurora Maria da Conceição, com apenas 42 dias de nascido. E para não perder o filho de vista, Lampião teria furado suas duas orelhas com a ponta de punhal, segundo contava-se.

 

Este fato foi contestado por Vera, neta de Lampião e Maria Bonita. Ela adverte que quem pesquisa o tema sabe que os cangaceiros não marcavam os filhos com nenhum tipo de ferimento. Outro engano apontado por Vera refere-se à data de nascimento. João, segundo ela, nasceu em 1942, “quando meus avós já estavam mortos”. João morreu, tentando provar que era filho de Lampião.

 

Convidado ilustre, militar participa como ouvinte

 

Serra Talhada. Outra novidade foi a presença do ex-integrante de volante, João Gomes de Lira, 94 anos, tenente reformado do Exército que entrou na força com 18 anos para perseguir Lampião. Mesmo tendo curso primário incompleto, escreveu o livro “Lampião - Memórias de um Soldado de Volante”, com dois volumes. A presença do militar foi uma surpresa para os presentes.

 

Lira chegou à Câmara Municipal de Serra Talhada, onde estava havendo o encontro, acompanhado de um dos seus filhos. Ele veio de Genezaré, a 42 quilômetros, para ouvir os debates sobre o cangaço. Apesar de assediado pelos escritores, assistiu tudo em silêncio. Lamentou não ter trazido o seu livro para o público.

 

O escritor pernambucano, Antônio Vilela de Souza, colocou lenha na fogueira em torno do suposto heroísmo do tenente João Bezerra da Silva, comandante da volante que matou Lampião. Vilela diz que, de acordo com as pesquisas, o herói daquele ataque ao grupo de Lampião foi o aspirante Francisco Ferreira de Melo, que servia no quartel da PM em Santana do Ipanema e foi indicado para integrar a volante do tenente Bezerra, no dia do cerco a Angico, em Sergipe.

 

As informações davam conta de que o tenente Bezerra não iria matar Lampião, porque ele e o sargento Aniceto eram casados com a filha de um coiteiro do cangaceiro. O escritor garante que foi o aspirante Ferreira quem tomou a iniciativa do combate ao bando.

 

O escritor tenta corrigir outra injustiça. Ele diz que pouca gente fala no soldado Adrião Pedro de Souza, que morreu no cerco de Angicos. “Os historiadores só falam nos cangaceiros mortos”, lamenta.

 

Antônio Vicelmo, repórter

 

Mais informações:

Fundação Cultural Cabras de Lampião

Rua Virgolino Ferreira da Silva, 6 Cohab, Serra Talhada (PE)

(87) 3831 2041/ 9938 6035

 

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