Foram quase cinco mil quilômetros percorridos entre Goiânia e Natal, cruzando seis estados brasileiros: Goiás, Tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Estradas precárias, rodovias bem cuidadas, acessos difíceis e até travessias de balsas. Fora do cenário competitivo do 16º Rally Internacional dos Sertões - que ocorreu de 17 a 27 de junho - entre motos, carros, quadriciclos e caminhões, existe um Brasil esquecido e desconhecido. Pessoas, cidades, 554.544 distritos e regiões belas, escondidas, entranhadas e ofuscadas.

 

Entre Floriano (PI) e Crateús (CE), na oitava etapa do rali, João de Deus, nas redondezas de Pimenteiras, comunidade próxima ao encerramento daquele dia de competições, observava "guerreiros coloridos" e suas motos envenenadas. Agricultor, sertanejo, seu João se preparava para voltar para casa, quando a zoada começou. Ficou de longe observando e conferindo os motoqueiros. Ele se engraçou com uma moto azulada, com o número 1 na frente. Ao ver vários homens e até mulheres se aproximando da moto, não tirou a visão. Quando os jornalistas perguntaram numa língua diferente do que ele era acostumado a falar e ouvir, fez cara de desentendido, colocou a mão no queixo e começou a prestar atenção.

 

Sem rodeio, o francês Cyril Despress, atual campeão mundial e vencedor do último Rally Dakar, não parava de falar e responder as perguntas dos jornalistas. Olhando de lado, seu João não contou conversa e mandou: "Pense num macho pra falar mais do que o 'homem da cobra'. E pra completar, ainda fala embolado. Pelo jeito deve tá é perdendo a corrida". Sem saber ou como quem estivesse adivinhando, João de Deus acertara. E o francês não parava de falar e comentar a liderança do brasileiro Zé Hélio, que levou até o fim a diferença e garantiu o bicampeonato.

 

Feriado

Para os alunos e trabalhadores do distrito de Bananeiras, em Oeiras (PI), a quarta-feira do dia 25 de junho de 2008 vai ser inesquecível. Por volta das 7h30min, a professora Jussara Fonseca não conseguiu mais dar aula. "Uma ruma de moto chegou aqui. Nunca tinha visto isso na vida. Ninguém havia falado nada para nós. Foi uma bênção para esse povo da região que não tem diversão e vive só pra trabalhar na roça. Estou muito feliz mesmo", disse Neto Estevão, o dono da casa nas proximidades da largada.

 

"A gente só tinha visto esse tal de 'rali do Sertão' pela TV. É a primeira vez que passa por aqui. É muito bom pra nossa região, esquecida e abandonada no mundo. Voltem mais vezes", disse Antônio Sobreira, conhecido como Ioiô. Ele é o homem "mais experiente" do distrito, com 67 anos, e estava se preparando para viajar a cavalo. "Já tava saindo. Quando vi aquela arrumação, fiquei pra ver. Hoje é feriado pra todo mundo, ninguém mais trabalha e os menino não estudam. Estou muito feliz em poder acompanhar isso de perto."


Seu Ioiô e Neto Estevão falaram ainda que a seca castiga a região. O inverno veio tarde este ano e o que eles plantam, os animais que criam, são para uso próprio. "Quando sobra, a gente troca ou vende, mas é difícil". Pelo menos, em um dia de 2008, as 40 crianças e 20 adultos de Bananeiras tiveram um "feriado especial", fizeram amigos e serão lembrados pelos visitantes que fizeram contato, deram presentes e prosearam muito. "Aqui seu moço, não importa muita coisa, mas a amizade a gente considera e é muito importante pra todo mundo aqui", concluiu Neto Estevão.


Freire Neto - Especial para O POVO

07/07/2008 00:40

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