Desde ontem, as atenções do cinema brasileiro estão voltadas para Brasília. Não se trata de frase protocolar, lugar-comum usado a cada vez que começa um festival de cinema. É que o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é ainda, e de fato, o mais importante do País. O mais antigo (a primeira edição é de 1965), o de maior credibilidade, e aquele que se manteve fiel ao projeto original, dedicado, com exclusividade, ao cinema brasileiro, mesmo quando este andou muito mal das pernas, no início dos anos 90, sob os efeitos do furacão Collor-Ipojuca Pontes.

O festival de 2006, na 39.ª edição, começou ontem à noite, para convidados, no bonito Teatro Nacional Cláudio Santoro, onde foi exibido fora de concurso o docudrama Romance do Vaqueiro Voador, de Manfredo Caldas. O filme é baseado no poema homônimo de João Bosco Bezerra Bonfim e fala da recriação do universo mítico do nordestino, na nova diáspora que faz parte da saga da construção da nova capital brasileira durante o governo do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Um filme inédito, para abrir um festival de inéditos.

Ou quase isso, uma vez que a capital começa com uma pequena polêmica em potencial. A organização tem optado, nos últimos anos, por levar ao pé da letra o regulamento que dá preferência a filmes inéditos na seleção dos concorrentes. Essa interpretação desagrada aos cineastas, que gostam de percorrer com os filmes o chamado "circuito dos festivais" - concorrendo em todos. Enfim, regras são regras, o que nem sempre agrada no Brasil. Acontece que um dos "inéditos", o documentário Encontro com Milton Santos - Ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá, de Sílvio Tendler, foi, anteriormente, apresentado duas vezes na Jornada de Cinema da Bahia, em setembro. Não seria, portanto, 100% inédito, como se exigiu dos outros concorrentes.

A indicação de Tendler provocou uma chiadeira, "em off", de cineastas preteridos no cobiçado e restritivo concurso brasiliense - afinal, são apenas seis os longas-metragens ungidos para a competição. O diretor justifica-se dizendo que, em Salvador, apresentou apenas uma "cópia de trabalho". Enfim, fica essa pendência, que, ao leitor, pode parecer uma questiúncula, mas capaz de produzir choro e ranger de dentes no ambiente sensível e egóico do cinema nacional. Já os outros cinco concorrentes são de fato e, comprovadamente, zero-quilômetro. Há mais dois documentários em competição, Jardim Ângela, de Evaldo Mocarzel, e O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho. Esses dois, e mais o de Tendler, competem com três de ficção: Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, Querô, de Carlos Cortez, e Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton.

Houve mais um acidente de percurso nesta edição. Cleópatra, de Julio Bressane, estava originalmente selecionado mas o diretor alegou que não teria tempo de aprontar a cópia e assim desistiu. Jardim Ângela entrou no lugar. Sabe-se também que Baixio das Bestas é finalizado a toque de caixa para competir, o que cria um pouco de suspense. Ficará pronto? Deve ficar, e essa luta contra o tempo não é novidade no cinema nacional. Em 1993, por exemplo, Carlos Reichenbach desceu do avião com a cópia de Alma Corsária debaixo do braço para vencer o festival.

São percalços, mínimos, diante da importância do festival. A cidade paga o preço de manter um formato enxuto, quando existem pressões para inchar as mostras "para que haja espaço para todo mundo". Atém-se ao ineditismo, pelo simples e bom motivo que, como festival mais importante do País, reserva-se o direito de ser a primeira vitrine dos filmes. Esse ineditismo também lhe assegura repercussão em nível nacional. Brasília paga o preço, mas recebe a contrapartida em credibilidade.

O ineditismo e o caráter sintético das mostras também contribuem para abrir um interessante espaço de reflexão a cada ano em Brasília. As sessões principais compõem-se de apenas um longa e dois curtas em 35 mm por noite, apresentados no Cine Brasília. A mostra em 16 mm tem lugar em outro espaço. Na manhã de cada dia, debate-se a fundo os concorrentes da noite anterior. As tardes são reservadas aos seminários. Na programação deste ano, está previsto um amplo simpósio sobre a crítica cinematográfica, com a presença dos principais especialistas do País. O Festival de Brasília é um espaço que se abre a cada ano para refletir sobre o estado das coisas do cinema nacional. Assim deve continuar.

Luiz Zanin Oricchio da Agência Estado

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