PÂNICO
Madrugada de terror no RJ: 18 mortos
Na onda de violência, sete passageiros foram carbonizados em um ônibus. Também 23 pessoas ficaram feridas. Os ataques foram atribuídos pela governadora Rosinha Matheus às facções criminosas CV, TC e ADA
Sergio Torres, Mario Hugo Monken, Talita Figueiredo e Antônio Gois da Folhapress

 

29/12/2006 02:07
Ataques sincronizados de facções criminosas causaram a morte de 11 pessoas e a reação policial matou sete possíveis traficantes, somando 18 assassinatos que levaram pânico à parte do Rio de Janeiro, às vésperas do Réveillon, festa que atrai uma multidão de turistas à capital fluminense.
Sete passageiros carbonizados em um ônibus interestadual incendiado, dois policiais militares e duas pessoas que estavam no lugar errado na hora errada morreram durante atentados iniciados na final da noite de quarta-feira e que se estenderam com menor intensidade durante o dia.
Segundo a Secretaria de Segurança do Estado, 23 pessoas ficaram feridas, sendo oito PMs um policial civil e 14 civis. Foram incendiados oito ônibus e atacadas quatro cabines da Polícia Militar e seis delegacias. Por essa contabilidade, houve pelo menos 28 ataques em bairros das zonas Sul, Norte e Oeste, no Centro e na Baixada Fluminense.
Nessa conta, ficaram de fora os ataques ocorridos em Niterói, Mesquita e Itaboraí, no Grande Rio, e em áreas populosas da Zona Oeste, como Santa Cruz. A versão oficial da Secretaria de Segurança é que os ataques foram planejados nos presídios por líderes do tráfico de drogas, com o objetivo de pressionar o novo governo, que assume na segunda-feira. Dentro do próprio governo, há divergências quanto a essa versão.
Para a governadora Rosinha Matheus (PMDB) e a Secretaria da Segurança, os ataques foram planejados por criminosos das facções Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando (TC) e Amigo dos Amigos (ADA), que, de maneira inédita, teriam atuado conjuntamente. O secretário da Segurança Pública, Roberto Precioso Júnior, disse que há uma "acomodação" (satisfação dos presos com a atual distribuição carcerária das facções) dentro dos presídios. Com os ataques, os traficantes querem mostrar ao governador eleito Sérgio Cabral Filho (PMDB) que são poderosos e querem manter a situação atual em vigor.
O secretário de Administração Penitenciária, Astério Pereira dos Santos, reagiu à declaração. "Não há acomodação, pelo contrário", disse. Para Pereira dos Santos, as facções realmente se uniram, mas para enfrentar as milícias de policiais, ex-policiais, militares e bombeiros que tomam conta de favelas cariocas.
No episódio mais dramático, logo no início da madrugada, um ônibus da Viação Itapemirim que seguia do Espírito Santo para São Paulo foi queimado na avenida Brasil, na altura de Cordovil, Zona Norte, com os passageiros dentro. Sete não conseguiram escapar. Em frente à delegacia de Campinho, foi morto Luiz Carlos Moreira da Silva. Ele tinha ido até lá para registrar uma queixa. Estava fumando do lado de fora quando foi baleado.
Em Botafogo, Zona Sul, após o ataque a uma cabine da PM logo após a meia-noite, foram deixados panfletos com o seguinte texto: "Rosinha e Garotinho apóiam a "melíssia' (sic) contra o pobre e o favelado e a resposta é Rio de sangue". A mensagem referia-se à governadora e ao marido, o ex-governador Anthony Garotinho, ambos do PMDB.
Pelo bilhete, eles apóiam as milícias formadas por policiais e ex-policiais que vendem proteção contra o tráfico e cobram para proteger moradores principalmente de favelas do Rio. Perto do Botafogo Praia Shopping, a ambulante Sueli de Souza foi morta quando estava sentada ao lado da cabine policial. No tiroteio, seu filho, Gabriel, seis, foi ferido de raspão.
Na Lagoa, Zona Sul, um dos pontos nobres do Rio, criminosos mataram com 12 tiros o soldado Robson Padilha Fernandes. As ações repressivas desencadeadas pela Polícia resultaram na ocupação de áreas em 10 favelas e nas mortes de sete supostos criminosos.
O QUE SÃO AS MILÍCIAS
- Quem são
Policiais militares e civis, ex-policiais, bombeiros, agentes penitenciários, militares das Forças Armadas e "arrependidos" (criminosos que mudam de lado e passam a trabalhar nas milícias)
-> Atuação
Os grupos invadem e ocupam favelas do Rio. Em seguida, expulsam ou matam os traficantes e criminosos do local e passam a cobrar uma taxa de segurança de moradores e comerciantes
QUAIS FORAM OS ALVOS
Total de mortos: 18 (três PMs, oito civis e sete bandidos)
Feridos: 22 (oito PMs e 14 civis)
Ônibus incendiados: 7
ALVOS CIVIS
1) Avenida - No viaduto que liga à rodovia Washington Luís, próximo a favela Cidade Alta, em Cordovil, dois ônibus são interceptados e incendiados, sem que os passageiros do primeiro possam descer do ônibus. Um deles é da Viação Itapemirim e viaja com 28 passageiros para São Paulo. O outro da Viação União. Sete passageiros morrem carbonizados
2) Bangu - Por volta de 7h15min, cerca de 20 traficantes da favela Vila Aliança ateiam fogo em três ônibus. Um na rua Maria Estrela, esquina com a rua Ministro Ari Franco, e os outros dois na estrada do Engenho.
3) Itaboraí (Baixada Fluminense) - Bombas caseiras são jogadas em frente a uma agência da Caixa Econômica Federal e em frente a um restaurante popular
4) Bonsucesso - Hospital Geral de Bonsucesso é atacado
5) Penha - Um ônibus é queimado
ATAQUES CONTRA POLICIAIS MILITARES
6) Lagoa - Ataque a uma cabine da PM, na avenida Epitácio Pessoa com Joana Angélica. Um PM é morto, próximo do edifício em que mora o ex-secretário da Segurança, Marcelo Itagiba
7) Botafogo - Em frente ao Botafogo Praia Shopping, na praia de Botafogo, uma cabine da PM é atacada a tiros. A ambulante Sueli Maria de Souza, 33, atingida, morre na hora
8) Barra - Ataque a uma viatura da< PM na Avenida Ayrton Senna. Um policial e um bandido mortos
9) Mesquita (Baixada Fluminense) - Ataque a um Destacamento de Policiamento Ostensivo da PM na esquina das ruas Assu com Itaqui. Dois bandidos mortos. Um deles é identificado como Luiz Cláudio Veras, 22
10) Alto da Boa Vista - Cabine da PM atacada a tiros e dois policiais ficam feridos
11) Del Castilho - Dois policiais militares são baleados dentro de uma cabine em frente ao shopping Nova América
12) Ramos - Postos de policiamento na Favela Nova Holanda atacados
13) Rocha Miranda - Ataque a postos de policiamento
14) Vicente de Carvalho - Ataque a postos de policiamento
15) Zona portuária - Ataque a uma viatura no viaduto da Perimetral
16) Jacarepaguá - Viatura da PM atacada
17) Tijuca - Cabine da PM atacada
ATAQUES A DELEGACIAS
18) Campinho - Bandidos atacam a 28ª DP. Luis Carlos Moreira da Silva, que prestava queixa, morre no local
19) Centro do Rio - 6ª DP (Cidade Nova) atacada a tiros e granada, a 5ª DP (rua Gomes Freire) e a 4ª DP (Central) também foram atacadas
20) Copacabana - 12ª DP (Hilário de Gouveia) foi alvo de tiros
21) Vila Valqueire - Ataque a 29ª DP
CONFRONTO COM A PM
23) Caju - Um bandido morto na favela Arará
24) Catumbi - Um bandido morto no morro da Mineira
NÚMEROS
7 passageiros foram carbonizados em um ônibus
7 civis foram mortos nas (re)ações dos policiais
4 outras pessoas morreram em ataques ocorridos em diferentes pontos, entre elas dois policiais
23 pessoas ficaram feridas, entre elas oito PMs e um policial civil
8 ônibus foram incendiados
4 cabines de polícia foram atacadas
28 ataques foram contabilizados no total

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