As crianças e adolescentes de Fortaleza estão morrendo mais vítimas de armas de fogo, faca e outros tipos de assassinato. Em oito anos, o número cresceu 89%. Passando de 193, de janeiro a setembro de 1999, para 366, no mesmo período deste ano. Homicídios à bala são a principal causa.

No dia 4 de julho deste ano, Francisca Ana Cavalcante, 63, não teve coragem de sair de casa para ver o neto, Francisco Israel, 19, que foi morto em uma rua próxima à sua casa. O adolescente sempre viveu com ela em uma casa humilde, no bairro Pirambu. A mãe, sem condições de criar os filhos, repassou para Francisca a tarefa de avó-mãe de três crianças. Israel era o segundo mais velho. "Ele usava drogas e fazia alguns assaltos, mas não merecia ter morrido assassinado à bala deste jeito", lamenta. Israel faz parte de um número que vem aumentando nos últimos anos em Fortaleza: o das crianças e adolescentes assassinados. Comparando os meses de janeiro a setembro dos anos de 1999 a 2007, o crescimento de óbitos registrado neste segmento populacional foi de 89%. Neste período, as mortes passaram de 193 em 1999, para 366 oito anos depois, de acordo com dados da vigilância epidemiológica de Fortaleza, por onde passa o registro de todos os óbitos.

 

Entre os tipos de agressões registradas, que variam desde enforcamentos, lesões mortais a pauladas ou socos e pontapés, um dado chama a atenção negativamente por seu destaque quando comparado as demais formas de agressão. É o assassinato por armas de fogo. Das 366 mortes de jovens e crianças registradas este ano, 320 foram ocasionadas por armas de fogo. Isto significa que de cada 100 óbitos, aproximadamente, 87% tiveram como causa revólveres, pistolas, espingardas dentre outras. Os índices de uso de armas de fogo continuam altos nos demais anos.

 

De acordo com consultor Paulo Riccordi, que trabalha no Programa Fortaleza de Paz, da Prefeitura, as mortes deste grupo são as que mais crescem, enquanto os óbitos de adultos e idosos encontram-se estabilizados. Na opinião de Riccordi, as crianças e jovens até os 29 anos são os que mais morrem porque tem uma cultura de exposição ao risco. "É um período da vida em que a pessoa está começando a testar os limites. Existe a questão do machismo, de se mostrar forte e buscar um papel", explica Riccordi.

 

Nos estudos de Riccordi, três fatores chamam a atenção para tornar os jovens mais vulneráveis a homicídios e outras formas de violência. O primeiro é a falta de perspectiva, associada, muitas vezes, à falta de um emprego, ou à baixa escolaridade. Outro são os problemas de desagregação familiar, onde pais e mães, por causa do excesso de trabalho e problemas financeiros, alcoolismo ou drogas, acabam relegando a segundo plano a criação dos filhos. O terceiro, segundo Paulo, é a falta de um vínculo, a necessidade de pertencer a um grupo.

 

E nesta busca do jovem por se descobrir entram em cena as disputas por territórios, a exibição com armas e o uso de drogas. "Quando vem a droga se começa a falar mais alto nesta relação. Você fica recolhido para um grupo e vai desempenhar um papel nele, seja de vender o produto, de fazer a guarda da boca de fumo ou outros fatores", diz Paulo Riccordi, que está realizando um mapeamento da violência na Capital.

 

Desde os 11 anos que Melo (nome fictício) entrou no mundo das drogas. A apresentação, segundo ele, aconteceu dentro da própria escola, por meio de amigos. Melo está "limpo" há pouco mais de um ano, período em que cumpre medida socioeducativa por assalto à mão armada. "Usei várias drogas como cola, maconha, cocaína e crack", diz. Para manter o vício, o roubo. E para manter a moral, muitas brigas com companheiros. "Já furei gente dentro da outra instituição. Não fui muito com a cara dele, nem ele com a minha. Aí começou as tretas (confusão)", diz Melo, que hoje está com 18 anos. 

Marcos Cavalcante da Redação O Povo
11/11/07

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