A paulista Nicole Borger levou seu show ´Cantando Marias´ a Guaramiranga, enquanto o carioca Danilo Caymmi passou em revista os grandes clássicos de mestre Dorival - promovendo um voz-e-violão em pleno festival de jazz

A MPB mais uma vez pediu passagem no festival. Os shows da cantora e compositora paulista Nicole Borger e do cantor, compositor e flautista carioca, baiano por decreto, Danilo Caymmi, no domingo à noite no Teatro Rachel de Queiroz, reiteraram essa opção do evento. O ecletismo e a abertura a uma diversidade de propostas não são novidade no festival. Mas, com um menor número de shows este ano, pode-se dizer que o espaço dado à MPB aumentou, proporcionalmente, na edição deste ano. Para aplausos de uns e a contragosto de outros.

Compositora que gosta de musicar poemas e intérprete principalmente centrada na técnica, a paulista Nicole Borger levou a Guaramiranga um show baseado em seu disco mais recente, ´Cantando Marias´. ´Vi uma pesquisa que dizia que 70% dos lares brasileiros são sustentados por mulheres, e resolvi homenagear essas mulheres´, disse Nicole, do palco, sobre a origem desse projeto. Festejando a oportunidade de uma nova apresentação no Ceará, a cantora trouxe o violonista e arranjador Ítalo Peron e se mostrou à vontade na companhia do pianista Edson Távora Filho e do saxofonista e flautista Bob Mesquita, nomes da cena musical de Fortaleza.

Com essa formação, uma sonoridade bem acessível e uma maioria de canções bem conhecidas, o público da sessão que tinha como atração final o show dos senegaleses Irmãos Guissé reagiu bem ao passeio de Nicole pelos tributos de diversos compositores brasileiros a suas Marias. Da ´Maria ninguém´ bossa-novista de Carlos Lyra abrindo os trabalhos a clássicos como ´Maria, maria´ e ´Maria, carnaval e cinzas´, em um show pontuado por sambas e marchinhas, em tempo de carnaval. ´É inusitado passar o carnaval de casaco, no Ceará, e cantando jazz´, comentou a cantora, agradecendo a acolhida do público. Destaque também para o belo arranjo de ´Olha, Maria´, com Nicole ladeada apenas pelo violão de Peron. ´É uma música muito especial pra mim, porque reúne os três maiores pais da MPB: Tom, Vinicius e Chico Buarque de Holanda´, comentou a cantora, que ainda reservou espaço para um dos poemas musicados de Florbela Espanca e para um momento mais jazzístico em ´Doce ilusão´, com improvisos no teclado e nos vocalises.

Dorival, voz-e-violão

Depois de o show dos Irmãos Guissé, na noite de domingo, arrancar os aplausos mais entusiasmados do festival, foi a vez de Danilo Caymmi apresentar sua releitura para um rol de clássicos de mestre Dorival, contando com o acompanhamento único do violonista Muri Costa. Quem diria, um voz-e-violão em pleno palco principal do festival de jazz, geralmente tomado por formações mais numerosas. Como em 2005, quando Danilo participara do festival, tocando ao lado de Paulo e Daniel Jobim e do baterista Paulo Braga, em um tributo ao maestro soberano.

Ao melhor estilo ´pouco papo e só sucesso´, Danilo pôs em desfile nada menos que 25 canções (sem contar os ´medleys´), puxadas quase sempre sem intervalos pelo violão de Muri, em pouco mais de uma hora de show. Tempo em que muita banda de jazz não toca mais do que quatro ou cinco temas. Daí a sensação de um certo deslocamento, mais pelo contexto do que pelas eternas canções de Dorival, gravadas no inconsciente coletivo. Bem que o show podia ser com banda, mas o público não reclamou. Pelo contrário; cantou junto o tempo todo, com Danilo puxando contracantos, incentivando a participação da platéia e só aqui e ali pontuando melodias na flauta.

´Esse é um show de música brasileira, de Dorival Caymmi´, avisou, para em seguida puxar em ritmo corrido as pérolas do mestre, com ´Canção da partida´, ´Você já foi à Bahia?´, ´Vatapá´, ´O que é que a baiana tem´, ´Maracangalha´, ´Samba da minha terra´, ´A vizinha do lado´, entre tantas outras obrigatórias do cardápio de Dorival. Como ´Saudade da Bahia´, ´Marina´ e ´Peguei um Ita no norte´.

Em uma das poucas pausas, elogios para o ´roadie´ cearense Johnnys Cabó (´Ele excursionou com a família Caymmi. É um dos melhores do Brasil´, comentou Danilo) e o anúncio de um projeto sobre a música de Jorge Amado, antes de cantar ´Vida de negro´. Ao anunciar o bloco de canções feitas por seu pai nos ´anos dourados de Copacabana´, Danilo brinca com a idéia recorrente de que Carlos Guinle, parceiro do baiano em canções como ´Quem inventou o amor´ e ´Sábado em Copacabana´) entraria com o uísque e Dorival com a música. ´A letra da música já prova que isso é mentira. ´Depois de trabalhar toda a semana...´. Meu pai jamais diria isso´, esclareceu.

Passando ainda pelo Jobim de ´Samba do avião´, ´A felicidade´ e ´Eu sei que vou te amar´, Danilo segue com ´Tome conta de meu filho, que eu também já fui do mar´ e ´O bem do mar´, homenageando Guaramiranga com ´Brasil nativo´, parceria sua com Paulo César Pinheiro. E chega a ´Casaco marrom´, festejando a recente releitura da música que fez sucesso com os Golden Boys. ´O bem e o mal´ e ´Andança´ encaminham o final do show, fechado no bis com ´Maracangalha´. Um cantinho, um violão. 

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