Festival Jazz & Blues : A noite do blues, Jean-Jacques Milteau
08 févr. 2008
Video do Jean-Jacques Milteau na França :
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Se diversos gêneros musicais tiveram espaço no festival, a segunda-feira de Carnaval em Guaramiranga foi integralmente dedicada ao blues, com ótimos shows de Felipe Cazaux, Jean-Jacques Milteau e Jefferson Gonçalves
Quem aí tá a fim de ouvir blues? A pergunta do guitarrista Felipe Cazaux, hoje um dos mais atuantes nomes da cena blueseira de Fortaleza, caiu como uma luva para quem conferiu os primeiros dias do festival, esperando por atrações mais dedicadas ao gênero que, nascido das canções de trabalho dos negros nos Estados Unidos, serviu de matriz para inúmeros outros na história da música. Felipe e a Dupla K - Klaus no baixo e Neto Krápula na bateria - fizeram um belo show no palco montado em frente à Igreja Matriz, fazendo frente à expectativa de quem, salvo por uma ou outra faixa, ainda esperava o blues dar as caras devidamente no festival.
O show do guitarrista e cantor - registre-se, com uma performance vocal condizente com a desenvoltura na guitarra - foi antecedido da apresentação de uma banda de jovens músicos, moradores de Aquiraz, reunidos para se apresentar na serra pelo projeto Novos Talentos, mantido pelo festival. Ao contrário da maioria dos grupos, este optou por uma formação semelhante à de uma banda cabaçal. Após a abertura, Felipe subiu ao palco e não demorou a mandar o primeiro riff de seu show, essencialmente autoral, baseado no elogiado disco ´Help the dog´. Melhor para o público que lotou a escadaria e, de um começo meio refratário aos apelos do guitarrista por mais agitação, acabou ficando de pé para melhor aproveitar os blues de Felipe e banda.
Além dos solos e dos vocais bem trabalhados de Felipe, destaque para o convidado especial Hérlon Robson, levantando a platéia com o som de órgão tirado de seu teclado. E também inserindo a escaleta na roda do blues, inclusive em duelo com a gaita do excelente Diogo Faria, convidado a participar, assim como outro gaitista, Vagner Andrade. ´Esse cara foi quem me estimulou a tocar blues´, mandou Felipe, enquanto Vagner literalmente chamou a galera para agitar. Em um show em que o peso do blues-rock elétrico predomina, não deixa de ser curioso que o ponto alto da apresentação tenha sido uma música mais lenta, ´Bad dreams´, um slow blues em tom menor, apresentado pelo guitarrista como uma composição recente. Fechando o show com a bela ´Miss you´ e ainda voltando para um festejado bis, Felipe reiterou sua posição de destaque nessa cena e fez um show que bem poderia estar no palco principal do festival.
Sotaques da gaita
E foi lá, no Teatro Rachel de Queiroz, que dois gaitistas, amigos via e-mails cruzando o Atlântico, promoveram um memorável encontro, animado pela velha chama do blues. O francês Jean-Jacques Milteau, referência internacional no instrumento, foi o primeiro a subir ao palco, para um desfile das possibilidades da harmônica em variados universos musicais. O blues, claro, é o principal, mas há incursões pela música do oeste francês e até pela África do Sul, sem esquecer o velho tema ´Oh, Suzana´, que apresentado por Milteau como ´a primeira música aprendida por quem compra uma gaita, em qualquer lugar do mundo´, ganhou uma bela releitura com o sopro de Jean-Jacques, acompanhado em todo o show pelo violão de Manu Galvin. ´Ele quebra tudo´, brincou Jacques, arriscando um português e festejando o velho amigo, com quem já tocou em dezenas de países - e pela primeira vez no Brasil.
Com o ´Honky tonk blues´ de Hank Williams, a vertente blueseira mais tradicional se faz presente no show de Jean-Jacques, que impressiona pela combinação de técnica e elegância, mostrando um painel dos recursos sonoros de sua gaita, mas nunca descambando para um excessivo virtuosismo. Na simplicidade do duo, a musicalidade se mantém em primeiro plano, entre um tema puxado da infância do gaitista em Paris e uma bela demonstração do lirismo que a gaita pode transmitir, em harmonias de riqueza e suavidade. Passando por uma boa releitura do standard ´The chicken´, com espaço de sobra para o violão de Manu improvisar, Milteau retornou ao blues e fechou sua apresentação pontilhando com a gaita a balada ´Love the one you´re with´, do Crosby, Stills, Nash & Young, na voz do violonista. O público ficou à espera do bis, mas ainda não era a hora.
Resfolego da gaita
Chamada, então, para Jefferson Gonçalves ganhar o palco principal do festival, tocando pela primeira vez com sua banda completa no Nordeste que tantas referências lhe vêm rendendo, ao longo dos últimos anos de pesquisa e diálogo musical com artistas de estados como Ceará e Pernambuco. Parte importante desse trabalho feito pelo gaitista carioca e pelo guitarrista Kléber Dias vem acontecendo no Festival Jazz & Blues de Guaramiranga, com os ´workshops´ e as oficinas para jovens músicos em vários municípios. Por toda essa relação com o festival, o boa-praça Jefferson, sempre de sorriso no rosto, celebrou uma apresentação especial, conferida ao pé do palco por vários integrantes da equipe de produção do evento.
Mandando seu blues em consórcio com a música nordestina, no que chamou de ´diálogos inusitados´, Jefferson exemplificou em seu próprio show as lições que costuma passar a seus alunos, em termos de presença de palco e comunicação com o público. Com as músicas do disco ´Conexão Nordeste - Gréia ao vivo´ e adiantando inéditas a constarem do próximo CD, ´Ar Puro´, o gaitista levantou a platéia logo de saída, puxou palmas o tempo todo e pôs seu bloco na rua, explicando a proposta de unir os solos e acordes do blues aos ritmos tradicionais nordestinos. ´Tudo na verdade veio na mesma embarcação, da África. Só que uma foi pro Brasil e outra pros Estados Unidos. A gente só uniu´.
Assim vieram faixas como ´White girl blues´, na levada do ´Baião´ de Gonzaga e Humberto Teixeira, com o boliviano Sérgio Velásquez no ´lapsteel´ (guitarra tocada horizontalmente, com auxílio do ´slide´). Dylanmaniaco que é, Jefferson prestou tributo ao músico que o influenciou a optar pela gaita, mandando ´Don´t think twice, it´s all right´ e ´All along the watchtower´, para água na boca de quem já espera pelos anunciados shows de Dylan no Brasil, em março próximo.
´Crossroads´, do seminal Robert Johnson, ganha uma releitura no ritmo do maracatu pernambucano, enquanto, em um dos momentos mais ousados do show, ´Help the poor´, de B. B. King assume a batida do maracatu cearense, com direito a participação de Vanildo Franco na percussão. O Ceará ainda ganha destaque com ´Essa é pro Expedito´, faixa composta por Jefferson sob inspiração das bandas cabaçais e dedicada a homenagear mestre Expedito Seleiro, artesão de peças em couro, morador de Nova Olinda, na região do Cariri. É a gaita de Jefferson Gonçalves, com resfolego bem nordestino.
Ao final, a celebração de um encontro com uma de suas grandes influências. E eis que
Jefferson chama Jean-Jacques Milteau ao palco e manda uma saideira que levanta o público, para o duo de gaitas. ´Sempre conversei por e-mail com esse cara. Nunca imaginei um dia estar dividindo o
palco com ele´. O público do blues, que ainda contou com uma ´jam-session´ lotada na madrugada de terça-feira, penhoradamente agradeceu.
Video :
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