Em um ano, dengue hemorrágica sobe 319%
16 avr. 2008
O avanço da Febre Hemorrágica do Dengue (FHD) no ano de 2008 até o momento supera, em muito, as estatísticas registradas até abril do ano passado. Segundo o último boletim da dengue, divulgado ontem pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), foram confirmados 109 casos de FHD no Estado, um número 319% superior ao boletim divulgado em 13 de abril do ano passado, que registrava um total de 26 casos confirmados. A forma mais grave da dengue também está avançando mais rapidamente para o Interior. Foram notificados 19 municípios onde foram encontrados casos da FHD, um número 2,5 vezes superior ao registrado no boletim de abril de 2007, que contabilizava sete cidades com dengue hemorrágica.
Outro sinal do avanço da dengue é a proporção com a forma clássica da doença, que vem diminuindo ao longo dos anos. Segundo dados da Sesa, em 2001 havia um caso hemorrágico para cada 221 da forma clássica. No ano passado, com os dados ainda não concluídos, a proporção já havia chegado em um para 83. Este ano, entretanto, a média é de 66 casos confirmados da forma mais branda para um hemorrágico. E tudo indica que a situação possa ficar mais complicada, pois os meses mais tradicionalmente críticos de registros, segundo a Sesa, são os de maio, junho e julho.
O secretário executivo de Sesa, Arruda Bastos, confirma que a principal preocupação da secretaria não é com o aumento dos casos da forma clássica, mas da hemorrágica. "Pelas estatísticas, o ano em que tivemos o maior número de registros foi em 1994, com 47 mil casos, mas o número de dengue hemorrágica era menor", ressalta Bastos. Ele também lembra que, como muitos adultos contraíram a doença, a preocupação agora é com as crianças e adolescentes. "Daqui a alguns anos, teremos uma geração de imunizados, mas as crianças não são. Nossa preocupação também é com a vinda do tipo quatro da dengue, contra o qual os cearenses não estão imunizados", destaca o secretário executivo.
Entre os dados negativos, um é bastante positivo. Embora os casos de dengue hemorrágica tenham aumentado, o percentual de infectados para o número de óbitos diminuiu. Dados da Sesa apontam que, em 2000, a incidência de mortes chegava a 75% dos casos, quando foram confirmadas quatro pessoas com a FHD e três mortes. No ano passado, o índice de letalidade foi de 3,3%, mesmo com os dados ainda não concluídos.
Para evitar óbitos - que já chegam a dois este ano, um em Fortaleza e outro em Redenção - Arruda Bastos ressalta que um tratamento e diagnóstico correto fazem a diferença na hora de salvar o paciente. "Realizamos desde o ano passado cinco capacitações de pediatras, e oferecemos para o Rio de Janeiro esta capacitação. Agora, é certo que o registro de casos em um número maior de municípios da mais trabalho", diz Bastos, lembrando que o combate ao mosquito começa dentro das casas das pessoas, onde é encontrado o maior número de focos.
E-MAIS
Hoje, comunidades de dez bairros da Capital estão inseridas em um mutirão de prevenção e controle da dengue. A ação, organizada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), tem como objetivos a limpeza de quintais, além de passeatas e peças teatrais para esclarecer a população da necessidade de se eliminar os recipientes de água que podem servir de criadouros do mosquito.
Também hoje a SMS, em parceira com a Guarda Municipal, agentes sanitaristas e Corpo de Bombeiros começarão os trabalhos de vedação de cinco mil caixas d´água localizadas na Messejana. O objetivo é diminuir o índice de infestação no bairro, o maior da Capital. Segundo estatísticos da SMS, das sete mil caixas d´água do bairro, apenas duas mil são vedadas.
O secretário-executivo da Saúde do Estado, José Arruda Bastos, diz que a situação é grave e que o plano de contingência que está sendo elaborada tem como proposta organizar a rede de assistência caso haja uma epidemia. “Estamos nos antecipando”. Na próxima segunda-feira, das 8 às 12 horas, dirigentes dos hospitais-pólos estarão reunidos na sede da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), na Praia de Iracema.
Ele acrescenta que profissionais da saúde das unidades do Interior podem tirar dúvidas sobre procedimentos pelo telefone 0800 851520. Arruda Bastos observa que a mobilização social envolve vários segmentos da sociedade e que nesse contexto estão incluídos os estudantes de cursos da área da saúde. Em Fortaleza, a demanda aumentou muito nos hospitais São José e Infantil Albert Sabin (Hias) e Geral de Fortaleza (HGF).
Bastos diz que os universitários podem ajudar nas ações de prevenção e na assistência, realizando o teste do laço em pacientes que aguardam o atendimento. A prova do laço é o exame realizado com o tensiômetro (aparelho que mede a pressão). É muito importante no diagnóstico de dengue hemorrágica. Ele é feito em doente com pelo menos dois sinais de alerta para esse tipo da doença. O aparelho é colocado no braço e se surgirem lesões hemorrágicas na pele o resultado é positivo para a forma grave da doença.
A promotora de Justiça da Saúde Pública Isabel Porto afirma que fará uma audiência também com todos os dirigentes de hospitais particulares para que também apresentem estratégias de atendimentos aos pacientes com suspeitas de dengue. Semana passada, a reunião foi com os secretários da Saúde do Estado e do Município que explicaram as medidas de prevenção e controle que estão sendo adotadas.
Napoleão Cruz, do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), observa que nos três últimos meses de 2007, foram realizados cerca de 4 mil sorologias para dengue. Nos três primeiros meses deste ano, cerca de 8 mil.
Marcos Cavalcante da Redação