ECONASA
Doze experiências bem-sucedidas de agricultores da Região do Cariri foram visitadas pelos participantes do VI Econasa, que se encerra no dia 24 de novembro. Uma delas foi de seu Juvenal que mantém em sua casa um "Quintal Produtivo" e com pessoas da comunidade fundou uma Casa de Sementes

Seu Juvenal Januário de Matos, 69 anos, é um dos agricultores da Região do Cariri que mudaram a forma de trabalhar na roça. Ele procura diversificar o plantio. Planta arroz, feijão, milho, mandioca. Acabou com a monocultura e para separar as diferentes culturas planta sementes de girassol. "Todo mundo diz que é a roça do doida", conta ele, entusiasmado com a experiência que vem dando certo desde o final dos anos 80, quando começou a participar de cursos sobre agroecologia.

O projeto dele e da comunidade de Batateiras, no Crato, foi uma das 12 visitadas pelos participantes do VI Encontro Nacional da Articulação do Semi-Árido (Econasa). O evento, que vai até o dia 24 de novembro, reúne pessoas dos 11 estados que compõem o semi-árido (todos do Nordeste, Espírito Santo e Minas Gerais).

O número de pessoas envolvidas em projetos agroecológicos não é maior, explica Alex Josberto, assessor da Cáritas Diocesana do Crato, porque muitos agricultores arrendam terra para plantar e precisam de um retorno imediato para quitar suas dívidas. "O plantio em que não se utiliza semente híbrida e agrotóxicos demoram mais para dar o retorno financeiro", afirma. No entanto, seu Juvenal conseguiu aplicar a "teoria na prática", como gosta de ressaltar, apesar de ter que arrendar terras para plantar e ganhar o dinheiro para o sustento da família.

Hoje seu Juvenal e sua esposa Durçulina Gomes de Matos, 72, têm também um pedaço de terra onde construíram a casa da família e mantém um "Quintal Produtivo". "Quando recebi esta terra era cheia de carrapicho e carro santo. Eles plantavam fumo e a terra era arenosa". Hoje a pequena propriedade tem árvores frutíferas, como goiaba, cajarana, manga, laranja, caju e banana, além de hortaliças. Os produtos retirados do quintal são para consumo somente da família.

Um tanque onde se cria tilápias e patos completam o "Quintal Produtivo". "As fezes dos patos alimentam as tilápias e elas ajudam na fertilizam da água, que é usada para irrigar a terra", explica Josberto, que presta assistência à comunidade. A água do tanque vem de um poço profundo da comunidade. Incansável, seu Juvenal escutou falar de um banco de sementes e começou a pensar em formar um na comunidade. Já era costume entre os agricultores guardar as sementes de um plantio para outro, mas não de uma forma cooperada.

Desde 1998, o sonho de seu Juvenal se tornou realidade e no dia 18 de julho foi fundada a Casa de Sementes Senhor dos Exércitos. São 36 tipos de sementes orgânicas e nativas e 38 associados da comunidade e bairros vizinhos. Para se associar basta ter terras para plantar e garantir a devolução do dobro do que foi recebido. "Não precisamos mais esperar pelas sementes do governo (do Estado) que demoram a chegar e são 'envenenadas´", diz seu Juvenal.

A Casa de Sementes está sendo construída. De taipa até pouco tempo atrás, o grupo, diz seu Juvenal, conseguiu um financiamento do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) para melhorá-la. A estrutura de alvenaria já foi levantada e falta apenas o reboco e a pintura para terminá-la. Prateleiras e um balcão para guardar as sementes e atender os associados vão completar a decoração. Mas seu Juvenal não vai se desfazer da lousa colocada em uma das paredes da casa. Lá, ele dá aulas de reforço para pessoas da comunidade. Muitos já aprenderam a ler e a escrever, entre eles dona Durçulina, esposa de seu Juvenal.


A jornalista viajou a convite da ASA

Lisiane Mossmann
Enviada ao Cariri

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