Clima tenso nas comunidades tremembés de São José e Buriti, no distrito de Marinheiros, em Itapipoca, a 138 quilômetros de Fortaleza. Cerca de 100 famílias residentes na área estão divididas quanto à origem étnica: alguns negam a descendência indígena, apóiam e trabalham para a construção do Complexo Turístico Nova Atlântida, de empresários espanhóis, enquanto a maioria luta para que o empreendimento não seja instalado nas terras próximas às margens do rio Mundaú e da praia da Baleia que, segundo as lideranças e a própria Fundação Nacional do Índio (Funai), é de direito da aldeia Tremembé.

Trinta por cento das famílias não se identificam como índios, na avaliação de chefe da Funai no Ceará, Nemésio Moreira de Oliveira Junior, e essa resistência faz com que gere um mal-estar na localidade de Marinheiros, um pedaço de terra com fartura de coqueiros, cajueiros, dunas e uma bela paisagem para os visitantes. Na última segunda-feira e ontem, foi preciso uma ação conjunta de órgãos federais como Polícia Federal, Ministério Público, Funai e Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para tentar impedir um conflito entre a comunidade dividida.

"Estamos aqui para impor a ordem e se o Governo federal delimitar a área indígena não tem quem determine o contrário. Quem desobedecer as ordens será punido", disse o agente da Polícia Federal, Luis Moreira Neto, que chefiava o grupo, para os que estavam trabalhando para a empresa Nova Atlântida. Os policiais federais fizeram busca de armas e recolheram materiais de trabalho como pás e enxadas, além de alertarem sobre possíveis ameaças. "Andar armado ou ameaçar autoridades ou de incêndios a carros de pessoas que vêm aqui para solucionar esse problema dá cadeia", acrescenta.

Os policiais federais, o chefe da Funai, representantes do Ibama e o procurador e antropólogo Sérgio Brissac fizeram uma reunião, na tarde da última segunda-feira, 13, na comunidade São José para ouvir a comunidade. Também estiveram presentes membros da diretoria da empresa Nova Atlântida. Nemésio Moreira explicou aos índios que em 2007 a Funai vai realizar um censo antropológico e a área será demarcada. Ele explicou que, quem for índio vai ser identificado com uma carteirinha e os que não foram identificados não poderão ficar na aldeia.

"Vocês tem de entender que trata-se de uma área que a empresa (Nova Atlântida) nunca vai ser dona". Nemésio disse temer um conflito sério com a separação dos que se consideram índios e lutam pela terra e dos que não se caracterizam como indígenas e trabalham para a empresa. "A separação da comunidade está tão arraigada que até a missa é separada", acrescentou.

ENTENDA O CASO

Em 10 de outubro último, cerca de 200 índios tremembés da comunidade de São José e Buriti, no distrito de Marinheiros, em Itapipoca, ocuparam a estrada que liga o distrito à foz do rio Mundaú para evitar que caminhões da empresa Nova Atlântica, que tem o projeto de um Complexo Turístico na área, passassem conduzindo material de construção.

No dia 24, os índios que estavam no acampamento escreveram a primeira carta pedindo o apoio das demais comunidade indígenas, quilombolas, pescadores, trabalhadores sem-terra e dioceses para a luta que diziam enfrentar desde 2002 para impedir que fosse concretizado o empreendimento que inclui resorts, hotéis e campos de golfe. Ele denunciavam as ameaças que sofriam de homens contratados pela empresa e que estavam acampados por perto.

Dia três deste mês, os tremembés redigiram a segunda carta endereçada ao procurador federal Márcio Andrade e ao chefe da Fundação Nacional do Índio (Funai), no Ceará, Nemésio Moreira de Oliveira Júnior, comunicando que estavam vivendo "momentos de aflição" porque a "empresa (Nova Atlântida) dividiu a aldeia oferecendo empregos e contratou pessoas desconhecidas para amedrontar os moradores da aldeia".

No último dia quatro, nova carta foi redigida por representantes da Sociedade Tremembé de São José e Buriti fazendo denúncias de que dois policiais armados de revólver identificados como Douglas e Francisco Valério e mais quatro homens, contratados pela empresa, tinham feito ameaças dizendo que estavam ali para "matar, prender e algemar". Disseram também, segundo a carta dos índios, que a Justiça iria expulsar a comunidade de lá.

Segunda-feira, 13, policiais federais, representantes do Ibama, o chefe da Funai no Ceará, Nemésio Moreira de Oliveira Júnior, e o procurador Sérgio Brissac estiveram nas comunidade de São José e Buriti para tentar conter os ânimos e impedir um conflito. Fizeram reunião com os tremembés e com representantes da empresa. Os policiais federais deixaram claro que irão ficar atentos, assim como o comando da polícia militar de Itapipoca.

Rita Célia Faheina
Enviada a Itapipoca

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